quinta-feira, 10 de julho de 2014

Rainer Maria Rilke


OS CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE - EXCERTO
Oh noite sem objetos. Oh janela cega para o mundo lá fora, oh portas fechadas com cuidado; hábitos do passado, recebidos, reconhecidos, nunca inteiramente compreendidos. Oh silêncio na escadaria, silêncio dos quartos vizinhos, silêncio no alto, junto ao teto. Oh mãe: oh única que dissimulou todo esse silêncio, outrora, na infância. Que o toma sobre si, e diz: não te assustes, sou eu. Que tem a coragem, em plena noite, de ser esse silêncio para aquele que tem medo, que se arruma de medo. Acendes uma luz, e já o ruído és tu. E a seguras diante de ti e dizes: sou eu, não te assustes. E tu a depões, devagar, e não há dúvida: és tu, és a luz em volta das coisas costumeiras, cordiais, que aí estão sem sentidos ocultos, boas, simples, inequívocas. E quando algo se inquieta em algum lugar na parede ou dá um passo nas tábuas: apenas sorris, sorris, sorris de maneira transparente sobre um fundo claro para o rosto assustado que te inquire como se estivesses conluiada e tivesses segredos com cada voz baixa, como se estivesses combinada e de acordo com ela. Algum poder no império terreno se assemelha ao teu? Vê, reis jazem e olham fixamente, e o contador de histórias não é capaz de distraí-los. Reclinados nos seios felizes de suas favoritas, o horror rasteja sobre eles e os deixa trêmulos e desanimados. Tu vens, porém, e manténs o monstruoso atrás de ti e o encobres completamente; não como uma cortina que pudesse se abrir aqui ou ali. Não, mas como se o tivesses vencido em razão do chamado que precisou de ti. Como se tivesses chegado muito antes de tudo que pode vir, e tivesses às costas apenas a tua chegada apressada, o teu caminho eterno, o voo do teu amor.

[In Os cadernos de Malte Laurids Brigge, tradução e notas de Renato Zwick, Porto Alegre, L&PM, 2010, pp. 60-61]. 



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