domingo, 5 de outubro de 2014

Stéphane Mallarmé

Cansado do repouso amargo onde a preguiça 
Em mim ofende a glória por que fugi à infância 
Adorável dos bosques de rosas sob o azul 
Natural, e mais lasso sete vezes do duro 
Pacto só de cavar na vigília outra cova 
Na terra avara e fria do cérebro à prova,
Coveiro sem piedade pela esterilidade,
— Que dizer à Aurora, ó Sonhos, visitado 
Pelas rosas, já quando, das suas rosas lívidas, 
Pávido o cemitério unir campas vazias? — 
Quero deixar a Arte voraz de tal país 
Cruel e, desdenhando as críticas senis 
Dos meus velhos amigos, o gênio ou o já ido 
E a lâmpada que sabe qual é minha agonia, 
Imitar o Chinês de espírito tão fino 
Cujo êxtase puro é o pintar o fim 
Nas chávenas de neve roubada à lua esquiva 
De uma flor caprichosa que lhe perfuma a vida 
Translúcida, uma flor cheirada só na infância 
E enxertada no azul da alma, em filigrana.
E, tal como do sábio a morte só em sonho, 
Sereno, vou escolher uma paisagem jovem
E pintá-la nas xícaras ainda, distraído.
Um fio assim azul e pálido seria 
Um lago, entre o céu de porcelana nua,
Um crescente perdido por uma branca nuvem 
Molhando o corno calmo nas águas glaciais, 
Não longe de três cílios verdes, canaviais.

[In Stéphane Mallarmé - Poemas lidos por Fernando Pessoa, tradução e prefácio José Augusto Seabra, Lisboa, Assírio & Alvim, 1998, pp. 53-54]



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