sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Wallace Stevens

DESENGANO DAS DEZ HORAS
As casas são assombradas
Por camisolas brancas.
Nenhuma é verde,
Ou púrpura, com fitilhos verdes,
Ou verde com fitilhos amarelos,
Ou amarela com fitilhos azuis.
Nenhuma é estranha,
Com meias de renda
E cinturas adornadas de contas.
Ninguém irá sonhar
Com babuínos e pervincas.
Somente, de vez em quando, um velho marinheiro,
Bêbado e dormindo de  botas,
Captura Tigres
Em tempo rubro.

DO MERO SER
A palmeira ao termo do espírito,
Além do último pensamento, surge
Na distância de bronze. Um pássaro de plumas de ouro
Canta na palmeira, sem humano significado,
Sem humano sentimento, uma canção estrangeira.
Sabes então que não é a razão
Que nos faz felizes ou infelizes.
O pássaro canta. Suas plumas refulgem.
A palmeira se alteia na fímbria do espaço.
O vento se move devagar nas ramas
Pendem do pássaro as plumas flamejantes.

OUTRA MULHER QUE CHORA
Deita fora toda a mágoa
Do teu amaríssimo coração
Que o luto não fará mais doce.

O veneno cresce na escuridão.
É nas águas de lágrimas
Que flores pretas afloram.

A causa esplendente do ser,
A imaginação, realidade una
Neste mundo imaginado

Prende-te a quem

Nenhuma fantasia move
E trespassa-te uma morte.

Sobre Wallace Stevens

Tradução: Sueli Cavendish

[Fonte: revista Zunái]


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