sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Armando Freitas Filho

DUAS NOTAS
Os passos da linguagem
no corredor da fala:
esta palavra que suspiro
e não digo: granada de silêncio
entre os dentes, corcel de vozes
galope, impulso, carga
percurso que não se cumpre
e, por dentro, deflagra um mudo
curto-circuito, uma suíte nua
e elétrica, sem pauta nem pausa.

Escrevo o silêncio com a tinta
branca do invisível: aqui está
o que não falo e o que medo
cala: cada letra ou as estrelas
imaginárias sonhando nas entrelinhas.
O que não consigo e persigo
o que persiste, tateia e segue
seu curso - do ápice ao colapso -
o vário fragmento, tudo o que penso
pousa em mim, e me vence.

[In Armando Freitas Filho, melhores poemas, seleção Heloísa Buarque de Hollanda, Global: São Paulo, 2010, p. 67]

Gustave Coubert

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