quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Elizabeth Bishop

ANÁFORA
In memoriam de Marjorie Carr Stevens

Cada dia, cerimonioso,
começa com pássaros, e fábricas
a apitar, estrepitosas;
diante de céus aurialvos
tão claros nossos olhos se abrem,
e por um instante perguntamos:
“De onde esta força, esta melodia?
Para qual inefável criatura
que não vimos, foi feito este dia?”
Logo, logo ela surge, e assume
          sua natureza terrena
          e cai vítima da intriga,
          sob o
ônus da memória,
          da mortal, mortal fadiga.

Mais lentamente, aparecem
os rostos sarapintados,
condensam sua luz, e a escurecem;
apesar de tantos sonhos
gastos nela em tal olhar,
atura nosso uso e abuso,
mergulha no fluxo de corpos,
mergulha no fluxo de classes
até chegar ao mendigo exausto
sem livro, sem luz, no lusco-fusco,
          imerso em estupendos estudos:
          este incandescente evento
          de cada dia em constante
          constante consentimento.

[In Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop, Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto, São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 161]


Nenhum comentário: