terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Keats

ODE A UM VASO GREGO

I

Tu, noiva ainda não desvirginada da quietude,
Tu, criada pelo silêncio e o tempo lento,
Historiadora silvestre, que podes assim expressar
Um conto floral mais suave que nossa rima.
Que lenda de friso de folhas se oculta sob teu traçado
De divindades ou mortais, ou ambos,
No Tempe ou nos vales da Arcádia?
Que homens ou Deuses são eles? Que donzelas relutantes?
Que louca perseguição? Que luta para escapar?
Que flautas e pandeiros? Que êxtase selvagem?

II

As melodias são doces, mas aquelas não ouvidas
São mais doces; desta maneira, vós, suaves flautas, soai;
Não ao ouvido sensorial, mas, ternamente,
Toquem as melodias espirituais do não-som.
Belo jovem, sob as árvores, não deixarás
Tua canção, como jamais perderão as árvores suas folhas;
Amante audacioso, nunca, nunca beijarás
Embora perto de tua meta - não te aflijas;
Ela não se desvanecerá, e embora não tenhas o deleite,
Sempre amarás, e será ela sempre bela!

III

Ah! Os ramos alegres, alegres! Que não perdereis jamais
Vossas folhas, nem vos despedireis da primavera;
E, músico feliz, incansável,
A tocar melodias sempre novas;
Mais amor feliz! Mais feliz, feliz amor!
Eternamente cálido e para sempre a ser gozado,
Continuamente palpitante e sempre jovial;
Todos eles suspirando a intensa paixão humana,
Que deixa o coração aflito e saciado,
A cabeça quente, e a língua seca.

IV

Quem são aqueles indo ao sacrifício?
A que verde altar, Ó misterioso sacerdote,
Conduzes aquela bezerra berrante aos céus,
E todos seus sedosos flancos com guirlandas?
Qual cidade à beira da praia ou rio,
Ou na montanha cercada por muralhas,
Que está deserta, nesta sagrada manhã?
E, na pequena cidade, tuas ruas sempre estarão
Em silêncio, pois ninguém que poderia contar
Porque estás deserta voltará.

V

Ó estilo Ático, bela Atitude!
De homens e donzelas forjados em mármore,
Com ramos silvestres e relva pisada;
Tu, forma silente, arroja-nos ao sortilégio
Qual a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a velhice arruinar esta geração,
Permanecerás, em meio a outro infortúnio
Que não o nosso, amigo do homem, a quem proferes,
“A Beleza é Verdade, a Verdade Beleza” - isto é tudo
O que sabeis na terra, e tudo o que deveis saber.

[In Nas invisíveis asas da poesia, tradução Alberto Marsicano e John Milton, São Paulo, Iluminuras, 1998, pp. 29-33]. 



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