terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Primo Levi

FRAGMENTO DE "A TRÉGUA"

Se em Szób embarcáramos um hóspede, depois de Munique percebemos que havíamos embarcado uma ninhada inteira: nossos vagões não eram mais sessenta, mas sessenta e um. No fim do trem, viajava conosco para a Itália um vagão novo, apinhado de jovens judeus, meninos e meninas, provenientes de todos os países da Europa Oriental.  Nenhum deles aparentava ter mais que vinte anos, mas eram pessoas extremamente seguras e decididas: eram jovens sionistas, iam para Israel, passando por onde podiam e abrindo caminho como podiam.Um navio esperava-os em Bari: haviam comprado o vagão, e engatá-lo ao nosso trem foi a coisa mais simples do mundo: engataram-no simplesmente , sem pedir permissão a mais ninguém. Fiquei assustado, mas riram de meu espanto: “Pois então Hitler não morreu?”, perguntou-me o chefe deles, com o seu olhar imóvel de falcão. Sentiam-se imensamente livres e fortes, donos do mundo  e de seu destino.

Chegamos de noite a Garmisch-Partenkirchen, ao campo de Mittenwald, entre as montanhas, na fronteira austríaca, numa extraordinária desordem.  Aí pernoitamos, e foi a nossa última noite de gelo. No dia seguinte, o trem seguiu para Innsbruck, onde se encheu de contrabandistas italianos, os quais, na ausência das autoridades constituídas, deram-nos os cumprimentos da pátria, e distribuíram generosamente chocolate, aguardente e tabaco.

Na subida para a fronteira italiana o trem, mais cansado do que nós, partiu-se em dois, como um fio demasiadamente esticado: muitos ficaram feridos, e essa foi a última aventura. No meio da noite, passamos o Brenner, que tínhamos atravessado para o exílio vinte meses antes: os companheiros menos sofridos, em alegre tumulto; Leonardo e eu, num silêncio transido de memória. De seiscentos e cinquenta, todos os que então partíramos, voltávamos três. E quanto perdêramos naqueles vinte meses? O que encontraríamos em casa? Quanto de nós fora corroído, apagado? Retornávamos mais ricos ou mais pobres, mais fortes ou mais vazios? Não sabíamos; mas sabíamos que nas soleiras de nossas casas, para o bem ou para o mal, nos esperava uma provação, e a antecipávamos com temor. Sentíamos fluir nas veias, junto com o sangue extenuado, o veneno de Auschwitz: onde iríamos conseguir forças para voltar a viver, para cortar as sebes, que crescem espontaneamente durante todas as ausências, em torno de toda casa deserta, de toda toca vazia? Logo, amanhã mesmo, devíamos lutar contra inimigos ainda ignorados, dentro e fora de nós: com que armas, com que energia, com que vontade? Nós nos sentíamos velhos de séculos, oprimidos por um ano de lembranças ferozes, esvaziados e inermes. Os meses transcorridos, embora duros, de vagabundagem às margens da civilização, pareciam agora uma trégua, um parêntese de ilimitada disponibilidade, um dom providencial, embora irrepetível, do destino. 

(In A trégua, Tradução Marco Lucchesi, São Paulo: Companhia das Letras, 2010, pp. 210-211)



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