domingo, 15 de fevereiro de 2015

Enrique Vila-Matas

EXCERTOS DE "DOUTOR PASAVENTO"

Depois de tudo, se hoje tenho alguma certeza, é a de que há uma grande injustiça no trabalho artístico. Escreve-se com a angústia de se ver desonrado por uma obra fracassada. O fracasso de uma obra supõe uma grande vergonha pessoal, porque o sujeito não pôde demonstrar nem sua inteligência nem seu talento. Ainda por cima o sujeito fica como um vulgar ambicioso, um arrivista de meia-tigela. A angústia domina, portanto, a realização da obra artística, mas o pior não é isso, o pior não é quando vem o fracasso, mas sim quando a obra resulta mais ou menos bem-sucedida e consegue aplausos e, mesmo assim, não se obtém de tudo isso nem sequer uma satisfação íntima. E que, na verdade, não há nada ali no reconhecimento, nada. Uma obra de sucesso vive sua própria vida, existe em alguma parte, à margem, e pouco pode fazer pela vida de seu autor. Ainda por cima, o cúmulo é que, de repente, sufocam o autor com felicitações superficiais, aplausos de uma honra duvidosa, grandes tapas nas costas, pedidos ridículos de autógrafos, cartas tétricas de amor, convites para amarrar uma corda no pescoço em qualquer prêmio nacional.

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Envelhecer talvez tenha sua graça, mas também é certo que envelhecer serve para comprovar que mudamos e que o tempo caminhou conosco, serve para comprovar que avançamos por dunas movediças que na aparência nos conduziram ao término de um trajeto e nos situaram na ponta avançada de um deserto onde, ao voltar a vista para trás (...) só podemos ver um velho caminho no qual o Tempo escreveu o fim abrupto de nosso mundo, do mundo. Sabemos que é o fim do mundo, se avançarmos. Sabemos que, se dermos um passo adiante, desapareceremos. E planejamos dá-lo, pois pensamos que é o melhor, recordamos que outros já deram esse passo antes, e esses outros foram sempre nossos exploradores favoritos, os que tanto admirávamos quando os víamos desvanecer-se nas tenazes sombras do vazio.

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“Até quando durou sua juventude, doutor Pasavento?”, me perguntou Morante à queima-roupa, no dia de Natal, assim que me viu aparecer na residência. Parecia que tinha passado toda a noite da véspera preparando aquela pergunta. Eu ia responder alguma coisa quando ele mudou a pergunta, ainda que só muito ligeiramente: “Até quando durou sua juventude, doutor Fausto?”. E riu. Era, dessa vez, o riso de um louco.

[VILA-MATAS, Enrique, In Doutor Pasavento, Tradução José Geraldo Couto, São Paulo: Cosac Naify, 2009].




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