segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Miodrag Pávlovitch


EPITÁFIO DO BARDO ESLAVO

Nesta minha nova religião
chamaram-me de renegado e inimigo
por causa de nossas antigas cantigas

Para evitar a ira da igreja
arrancaram as velhas canções feito raízes
deitaram ódio contra mim

Afundei na miséria
enterrado nas trevas
sonham-me feiticeiro
mas não me ergui da tumba ainda

Quando agora me despertam não levanto
será o juízo final ou o que mais —
e meus ouvidos rotos gritam:
Ressuscita infiel recolhe o teu corpo
onde encontrar o meu corpo indago
Neste rumor que me arrebenta o crânio
é fácil rememorar o corpo

Anjos — guardem as trombetas
soldados celestes
não pisem minha cova com esporas

Ficarei onde estou
na terra de minha língua
não quero ser julgado em seus concílios
não quero ser atirado sobre a fria lápide da eternidade
não quero ser lançado contra o céu claro

Outros que feneçam
basta-me a minha fossa
a terra parece feita de lã
e a canção fertiliza os ossos em segredo.

[Miodrag Pávlovitch, Poetas do Mundo, Bosque da Maldição, Seleção, introdução e traduçãoAleksandar Jovanovic, Brasília: Editora UNB, 2003, p. 42-45]




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