terça-feira, 10 de março de 2015

Ana Hatherly

APERTO A TUA MÃO ATÉ OS OSSOS DOEREM
Aperto a tua mão até os ossos doerem
Ah não me, digas que não magoa nada
Aperto a tua mão com minha mão membrana
membro aéreo de deslizar pela alma
ansa de sustentar as pancadas do coração de uma engrenagem
impulso das revoluções internas fibras dos sentimentos
gestos de a gente correr por dentro como apertar a tua
mão até os ossos doerem
Ah por dentro é que todos os gestos são
o pensamento de outros tantos gestos de um corpo maquinal-
mente como colher um fruto de uma árvore animal
deslizando pelas encostas abruptas dos interstícios de
outros gestos
como apertar a tua mão é aprisionar a membrana alar de
uma súbita excrescência
Ah não digas que não magoa nada
que não ressoa dentro da pele de qualquer coisa que passa
a correr pela grande veia porta estuário das convulsões
de um animal colorido a deixar um sulco na retina objectiva
do instante secretamente
gesto de acender qualquer coisa no escuro cauda estriada
de um gesto de colheita do fluido que faz tremer os lábios
em septo da força redonda de um beijo se erguendo centro de comando
da cúpula transparente de um sol em cacho
curva de uma anca muito branca para que as carícias sejam sempre
parábolas nas mãos trémulas do gesto de derrubar
árvores por dentro enquanto as folhas convergem para um
ponto único espiral iminente
eminente como a ponta de um dedo indicando o único ponto
de incidência onde o tremor de um cílio é já demasiado
colher o teu sopro para que o mundo acabe e fiques só
sem nenhum outro gesto da mão que procuras até não haver
ossos
para apertar-te a mão e não magoar-te nada

HESITAVA E MACIO
Não não te amo
não posso amar-te assim tão dual
não posso olhar para ti e, ver-te
vejo-te correr e não vejo a corrida vejo a fuga
vejo-te deitado e resvalo
não vejo o beijo
não vejo a língua sinto o frio
sinto o redondo dos olhos na dureza da unha
não vejo as pernas
sinto apenas o peso do seio não ali
não te vejo
sei apenas fraternal idêntico

no ventre produzido não não posso amar-te assim
tão perto nesta circunstância respiratória tão irmã
tão rindo
olha lembras-te como eira fundo as vértebras corriam
tão salgado passava primeiro sobre a água e como
corria ligeiramente fazia tremer a boca e então rias
e era tão negro sobre o teu joelho a ternura como um
cão deitado inclinava a cabeça tu rias por teu dentro
trémulo
ninguém estava assim em quilha ah era tão alto lá
não havia erosão
hesitava e macio
não é possível amar assim em báculo e tão pungente
como foge ali

ESTA OBSCURIDADE SALUBRE
Olha peço-te não venhas assim quando eu estava tão quieta
sentada no jardim e até com óculos
não venhas peço-te
não venhas melindroso e sorrindo
com a cabeça inclinada como um particípio
não venhas
Eu estava já me aproximando
quase tocava a recorrência das coisas
nesse momento eu olhava para o chão e via mesmo cada
pequena pedra saudável
eu estava tão quieta sentada no jardim
Respirava 
sentia as veias ligeiramente activas
mas tão ligeiramente
tudo corria fundo em sua sumidade
meus braços tinham apenas o seu peso
sem outras asas
Quando tu vieste sorrindo melindroso e tão salubre
de repente o jardim é a dificuldade essencial da minha
botânica
a minha indústria difícil
o fim que a alma lograda obtém dos corpos
Corro agora por minha alucinação dirigível
minhas tarefas são histriónicas
Eu estava ali tão quieta
estava até com óculos
e tu inclinavaste como um simulacro
Intui peço-te
esta obscuridade salubre
esta consternação despenhada
tropeçando pela alma recorrente silva

[In Poesia (1958-1978), Prefácio de Lúcia Helena da Silva Pereira, Lisboa: Moraes, 1980, pp. 80-83]



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