segunda-feira, 9 de março de 2015

Isabel Mendes Ferreira

139.
vim do mar. da mesa do mar. que dizia pálidos os
vestidos lançados ao chão. em vagas ou implantes dos
teus dentes como verdades, e da lã das tuas mãos como
cordeiros mansos trouxe a penitência ascendida da boca
dos animais mais ternos, vim do mar que hoje estava
de oliveiras e de fragmentos territoriais, os mesmos
quando fomos transeuntes álgidos e ardis sem envelopes
fechados, as tuas mãos como andas andaram nas minhas
como se asas também fossem, e os peixes abrigaram-
se nos teus pés. cruzados, relutantes no meio da sala
fulgurosa. e um anjo absurdamente coloquial dizia das
assimetrias do teu sorriso e do meu silêncio carnoso,
ocupaste o lugar de todos os ofícios como se ocupa a
lâmina e o fio. ao longe o futuro aquecia o vinho da
despedida em lugar do transe ou da melancolia, e floriu-
se o anjo de beijos primitivos, fez-se espelho e pedra e
lágrima e perfume e cabeça em desmaio, trago do mar
uma foice, latejante o mistério ávido em que te anuncio
nunca mais outra vez. a maré alta como advérbio
mortífero, água em calafrio e deus cheio de vestidos
lançados ao chão. e tu ao largo, sempre ao largo, cada
vez mais véu. o meu.

[In O TEMPO É RENDA, Lisboa: Labirinto de Letras, 2014, p. 092]

BY MICHELA BEVILACQUA

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