quarta-feira, 4 de março de 2015

Edwin Morgan

CINCO POEMAS SOBRE DIRETORES DE CINEMA
Antonioni
Árvores afogando em sal. O buraco da fechadura geme.
Ele deixou seu barco
no leito de junco, o livro dela
e luvas idiotas onde ela as jogou.
Além do canal os combatentes rondam
de norte a sul, seu chamado
continua através dos pântanos.
‘Por quê você esperou o verão terminar
antes de vir?’ ‘Por quê você esperou por mim
se preferia ter um barco que uma mulher?’
“Não foi isso. Não é isso.’
‘Já vou.’ ‘Mande o carro de volta.’
‘Com Sandro? Deve estar brincando.’ ‘Está frio.’
O carro prateado entre os álamos
como um peixe nos juncos.
Ele vive de balas de hortelã e blues
ou
Ele recorta fotografias para ganhar a vida
ou
Enviaram para ele a morte, está abrindo agora
ou

Grierson
Depois as redes subiram e caíram
sobre a onda. Depois a água escura
incendiou subitamente, depois escureceu.
Depois com uma pescada tudo era
fogo, tudo fogo prateado
lutando contra o escuro. Depois o fogo
subiu no ar lentamente,
debatendo sobre o lado do barco.
Depois era convés e cabo.
Depois era a dança da morte
em prata com gaivotas cinzas.
Depois eram nuvens baixas, barras de luz,
água alta estapeando, rasto agitado
e chá de impermeável depois.

Warhol
Nós nos tornamos laranja. Eles se tomam roxo.
O fuso está se tornando rock metamórfico.
Acendendo um cigarro, ele se torna ela.
O Empire State está se tornando escuro
o dia todo. Na praia há deuses,
que tornam suas costas um para o outro
enquanto cada um gira-se num visitante.
A pickup centelha e cospe, dois
cantos de stereo incandescentes.
No brilho ela se torna vaga, inclina-se,
e uma fração de segundo a torna
em um próximo ciclo de escuridão.
Eles gritam como papagaios, e tão radiantes,
todos se tornando metade pássaro.
Dois no sofá tornam um fanzine,
querido. Estamos ligados, desligados, ligados.
Uma peruca vagueia, ela
se torna ele. Ele gri-
ta em laranja. Nós
vagamos para a porta.
Torna-se. Retorna-se
ao mundo enfim,
parado como o Empire State
soprado pelo vento.

Kurosawa
Espada da clareira, brilho correndo.
Tremor de árvore, choro engasgado.
Sombra de rio, abalo completo.
Moinhos de pó, velho vento.
Moinhos de cova, gélido vento.
Fogo de colmo, criança correndo.
Carroça empilhada, milhares de cinzas.
Chuva da vila, floresta da tormenta.
Deuses da tormenta, fantasmas da chuva.
Pais inquietos, lareiras de preces.
Jogando faixas, tronos dissolvendo.
Colheita de sangue, pote de cão.
Moinhos de pó, velho vento.
Moinhos de cova, gélido vento.
Forno rachado, amarrotado lento.
Lâmina da lua, crânio degolado.
Irmão de sangue, cilada suntuosa.
Moedas do sol, cantos de pássaro.
Arco inclinado, homem correndo.
Arco inclinado, corpo pulando.
Arco inclinado, pescoço fluindo.
Arco inclinado, joelhos quebram.
Arco inclinado, peito cravado. 
Arco inclinado, arco inclinado.
Arco inclinado, arco inclinado.
Moinhos de pó, velho vento.
Moinhos de cova, gélidos ventos.

Godard
- as paredes todas muito brancas, a garota
falava devagar ao ser interrogada
mas as palavras perdiam-se nos sons de balas
vindas da rua -

caído no café, quarto marrom asséptico
o clangor do rádio, uma janela
abrindo-se num jardim sujo
com uma espécie de galinheiro -
se ele estava apenas bêbado, ou morto -

‘o público não tem meios de saber
e é isto’ / no elevador do arranha-céu
no décimo-nono andar

‘tudo bem, 20 mil
uma pechincha’

- não, a interrogação foi muito antes.
Ela foi para o campo -

a junção não
‘como’ uma teia de aranha
continua pegando trens -
as pontes onde ele se debruçou -
na verdade um céu em branco

TODOS OS REACIONÁRIOS SÃO TIGRES DE
PAPEL

- ela tinha vindo para a ponte sem que soubesse
mas já era tarde, eles tinham seus cachorros,
fácil mesmo sem lanternas -

MAS ELES TAMBÉM SÃO TIGRES REAIS
QUE TÊM DEVORADO MILHÕES DE
PESSOAS

‘Não há cinema
sem um fluxo de imagens,
Godard está destruindo o cinema’

MAS POR OUTRO LADO ELES SÃO TIGRES
DE PAPEL
PORQUE O POVO AGORA TEM PODER

e o conversível deslizou sobre
um clichê bacana no mar

[In Edwin Morgan - Poetas do Mundo, seleção, tradução e introdução de Virna Teixeira, Brasília, Ed. UNB, 2006, pp. 50-63]. 



Nenhum comentário: