sexta-feira, 15 de maio de 2015

Isabel Mendes Ferreira

a relação que tenho com os anjos tenho-a com o mar onde me faço memória
bicéfala para te ser distância fácil e perto e rasante à terra onde não moras
mas voas como o vento ou como a saudade do imprevisto visto em hipnose.
é assim como vestir a nudez e despi-la de sinónimos antigos onde somos
todos ex.brilhos de frases cálidas e opalinas como o tempo da cal
adormecida. oscilas me em sílabas hemisféricamente opostas à fala onde me
falas de abalos e de nomes afiados de sal e de música peregrina como os
lírios que me atiras em segredo. nesta relação epistolarmente púrpura
adormece a mão familiar de um anjo narrador de exílios e de véus amantes
de uma luz que o mar estilhaça.________tenho-te acima da ruína e ao lado
de um coração embriagado. assim diria a boca se esta fosse fonte. mas
somos apenas mais terra queimada onde tudo é perdidamente longe. tão
ao longe que os ossos estalam
na tua mão sobre o meu ombro e desfazem-se em olhos tardios ocos e
invigilantes. olhos com pestanas de sangue cognitivamente anunciadores da
paralisia do futuro. um moinho de conflitos trágicos a ser excesso de fardo na
divina ciência dos teus dentes indicadores do fim. e um dia a carne farisaica
entrou ressurrecta no teu bolso de alquimista do vento. símbolo de um
passado morto aos pés de uma escada descendente. que nunca subiu os
passos dos amantes . era a excelência dionísica de um seio novo a
amamentar a imortalidade. mesmo que por um só momento pendular da
ausência do eco. foi assim o mar que devolvemos ao fundo de todos os
fundos. de onde se volta nu e degolado. de vidro ou vitrais sem destino outro
que não seja a morte. e um dia o efémero dos teus olhos fez-se eterno na
terra do nunca. onde o sagrado é origem e verbo irmão da memória
amordaçada. um fósforo. uma campânula. uma ressonância madura de
monstros e de anjos. lá onde os pássaros explodem serpentinamente. e tu
não vês. porque inverso às marés és da terra que se abandona.
ruinosamente.

e hoje não te semeio rosas. que és ainda menino de ninguém.

© Isabel Mendes Ferreira



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