quarta-feira, 13 de maio de 2015

João Luís Barreto Guimarães

como se o acaso fizesse desta folha um reino
por habitar o endereço de janeiro algo branco
por começar como se de entre as nervuras da
folha apenas uma fosse o pombo que líquido se
eleva e voa como um aroma como um adeus ou
mesmo: como se uma ideia de ar fosse a força
dobrando uma pedra d’aço e o riso fosse água
e o jardim movimento onde se falasse das
cores do vinho e do corpo (substância de
referência) como se por exemplo: o amor fosse
só um de todos com outros todos (etc. assim:)
apenas eu como se livre fosse seria o eco que
volta como leve sono ou algo puro algo novo
raiz fixa ao gozo de ter uma vida nas mãos
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este poema foi escrito ontem hoje não
vou escrever (na face nego sorrisos como
quem fecha janelas) hoje só preciso de

mim (este poema é grátis: não está
incluído no preço do livro). hoje
não tocarei o corpo da Corona Four
uma ‘azerty’ americana já com uma certa
idade (ainda é das que escreve poesia a
preto e ranco) faz um mês que se perdeu
a tecla da letra « » só por isso não
tenho escrito sobre o rilho dos teus
olhos. o meu copo está vazio (hoje
não é poedia) depois eu mando alguém
buscar as minhas palavras

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11 DE ABRIL
Transpõe a porta de entrada um par que reconheço. Ela, das casas a norte. Ele, dos bairros a leste. Aqueles rostos porém, transportam uma impressão difícil de definir.
Entraram de mãos laçadas, anel doirando no dedo. Não os conhecia unidos. Desconhecia-os sequer conhecidos.
Não tenho vigiado os amigos. Tenho estado pouco atento à procura de percursos na calçada de cimento que fronteia o Café. Não fui eu que estabeleci que as horas que somam para mim, se multiplicam para os outros.
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FALSA PARTIDA
Ainda estranho o lugar quando acordamos
no revés de já ser outro
o dia
porque espelhas o tempo à janela é
à face de teu rosto que decido
o que vestir.
O vento que molda a praia
é de todas as bandeiras:
há um silêncio talhado à substância do quarto
(o chão de madeira matiza o
frio que força uma fresta)
podia apostar comigo: hoje
de madrugada
um cão ladrou na voz do galo.
O meu sobrenome segue-te
pela véspera da casa
(fim de emissão no ecrã
cálices
meio hasteados) a
chuva desistiu de apagar o nosso amor embaciado
pelo lado negativo.
Tornas à cama e abres
aquele romance de sempre
(o descanso existe
noutro cansaço).

[In Poesia Reunida, Quetzal, 2011]

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