domingo, 24 de maio de 2015

Isabel Mendes Ferreira

127.
com o corpo a ser campânula nos ombros lisos da água
fez-se película a morte em vez de viagem.

com as palavras surdas
e o coração em contrabaixo disse o profeta que seriam
horas de resgatar o anel a pedra e a tensão do sonho.

mais uma estrela e as tuas mãos submarinas seriam a
planície.
o profeta morreu e andam gaivotas no tecido que é caos.
assim se prende o rio do esquecimento à bainha do mar.

assim a face oculta que te assenta como
máscara.

128.
e um rio inteiro extenuava-se insatisfeito de ser água
sem margem, crispada a noite reincidiu em anel de
horizontes cativos, e como sílabas apolíneas vieram os
anjos, morrer estava fora do assombro, melhor seria a
mordaça e um olhar perfectus.
e logo o rio se fez nave a descrever imaginífica e
desvelada luz. assim a morte nunca será pedra, antes
maré ôntica. 

129.
dilatada a terra em que nos fazem ser sangue e ausência,
esventradas sombras como falsas muralhas de pele
rasgada, a subtileza é um mapa abandonado e neste
murmúrio cego de acento agudo sento-me à espera,
de um baptismo de espinhos redentores, que na flor é
declínio de ramagem, e nos teus olhos rotação de astro
desértico, serpentiforme o movimento anterior à fala.

130.
um dia uma ilha subiu aos céus. é verdade, existem
mistérios assim, feitos de escritos absurdos e
instáveis, um dia a unidade fez-se apenas intuição rasgo
e instância fora da pele do abandono, quilha disforme
que nenhum porto segurou, nem pelas redes que a lua
cuspiu.

um dia a infância deu à costa nas costas incomunháveis
reminiscentes e visionárias do futuro que não foi nem
história nem origem, o mistério luminoso do mundo é
ser desmascaramento e antítese, morde-se a cauda da
serpente para ser-se eterno e nada é. em círculo só a
boca. como ilha. mesmo que nada pareça ser tudo sugere
e os verdadeiros contrários são ângulos redondos

[In O TEMPO É RENDA, Lisboa: Labirinto de Letras, 2014, p. 086-087]


By Jörg Eichelberger



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