quarta-feira, 6 de maio de 2015

M. L. Continentino

O que aterroriza não é o empoderamento do silêncio
é a falta de sinais quando vejo o fundo do copo vazio
vejo a minha vida toda tingir-se da cor dos cemitérios
sabes que estás por tua conta
quando deixas cair a cabeça por cima de ombro nenhum
o coração infla e imediatamente encolhe como roupa puída no estendal
o osso curva-se calcinado pelo desprezo
instala-se a ira no avesso do osso
o olho abre e sofre
a boca cerze de lucidez
molda-se uma dureza em redor da boca
enquanto o resto se vai deformando com a violência do fogo

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Deus é difícil, Deus é sibilante 
já vivi muitas noites sem ele, à espera, invocando-o em xingamentos
por que razão nos deixas sofrer?
o sol incide sobre nós, queima nos pulmões
eu imito a alegria delirante do teu rosto
sinto que sou uma origem, uma presença que se medra extravagantemente viva
eis a forma do meu espírito finito que se abotoa com a tua clemente existência
semente dispersa, estertor
Deus é longínquo, Deus é vacilante à dor humana
desamparado e vigoroso penetro onde algo secretamente me espera
estou isolado na dureza das coisas, cambaleante de cólera
fundo o inferno com um ferrolho de rancor atravessado no corpo
arqueio-me em transe com demónios, percorro a escuridão agonizante do mundo
percorro a minha própria consumação
há fogo no adro! fecho a minha vida
e uma linha de sangue risca o soluço que escondo entre as mãos
Deus é um enjoo comovente
vejo-o na redondez líquida da pedra, no astro em órbita, no sílex que trabalha
                                                                   [o osso
observo-o e não compreendo, oiço um silvo nos membros
deito-me sobre grãos, ofereço-lhe a minha integridade
e ele abrange-me na aproximação devoradora dos dias
Deus é incompreensível, é grácil
acossado em repouso.

By Auyon Ashraf‎

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