segunda-feira, 29 de junho de 2015

Diogo Cardoso

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Amei o porco guardado nos olhos da mulher. Era janeiro e a nascente de tudo era fora das chuvas. Amei o porco e ele amava a traça no homem em mim. Vivíamos de desespero e água, e o esquecimento nos nutria a fome. Era janeiro e como não haveria de ser se o sol queimava as águas guardadas no verão? Era um rosto num olhar e ao novo já era outro o mesmo rosto. E eu era traça, pulga, rainúnculos e fibras. E ainda assim, água, amei o porco nos olhos da mulher guardado.

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Por duas vezes gritei e o que saia de minha boca eram raízes extremas. Duas vezes, não mais que duas. Da primeira, sete aves visitaram-me os lábios e com a certeza de quem assassina, comi-as todas. Farto, sentei as raízes em minha desolação. Não podia mais ser grito, não podia – queria apenas o silêncio perpétuo dos ânus venais. Isso foi há muito tempo, quando ainda os deuses nasciam com os pés atados à terra e as árvores eram tecidas de carnes mortas infantis. Da segunda, padeço ainda hoje das raízes saídas do sexo e do sonho impossível dos voos de pássaros dos quais sinto toda a fome.

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Os caranguejos sangraram a perna do homem que sem esperanças adiava a fome. Tudo era um só lodaçal vermelho com cheiro de morte e frutos do mar. Os filhos choravam o tempero da lama, e os olhos umidamente amolecidos do pai pediam perdão. Era uma tarde de horizonte rubro e gralhas estridentes animavam o céu. Enquanto o homem padecia nas profundezas do lodo, sob a crueldade móvel de exoesqueletos, as crianças, obedientes, viravam as costas e de cabeças humildemente baixas tomavam o rumo de volta ao exílio.

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Ele comia sabugos mortos na estrada. Em sua imundice, ele mastigava aquela matéria seca e árida de areia e saliva. Um coelho, puro e limpo em sua brancura, prostra-se indiferente ao lado daquela podridão humana. O homem, diante da bola branca pulsante, tomado por uma compaixão quase satânica, oferece-lhe um de seus sabugos. O bicho indiferente distancia-se num salto, sutil pluma de galinha que reza. O homem sente-se ultrajado, diminuído à última unha que lhe resta nos dedos, a cada sabugo morto caído sobre a terra. Num rompante, certo de sua miséria, exato em sua redenção, o homem consome a pureza no coelho com uma mordida certeira que lhe parte cabeça e corpo.

Um peixe nada em todo o esquecimento. De que lodo é matéria a memória?

Diogo Cardoso é bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo. Participou de diversos projetos literários, dentre eles o sarau Faça pArte, em parceria com o departamento de cultura da prefeitura de São Bernardo do Campo, Leitores itinerantes, sob curadoria de Tarso de Melo, e foi um dos curadores do projeto Clarice Lispector.

Fonte: Portal Vermelho




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