domingo, 28 de junho de 2015

Guilherme Antunes

PRECARIEDADE
entre as tristezas, pousam-me as fragilidades:
ciência da precariedade de todas as coisas.

impermanência e despedidas como inevitáveis temas
do lado oposto do sentir.

reunindo pecados afastei-me do sol para ver melhor
tudo quanto me põe a viver parece cansaço

e por ser-me o destino um assombro
e sorrir-me sempre o passado,
te aguardo para sempre na memória das ruínas.

COLO
Pudesse eu dar colo ao mundo todo,
para egoísta esquecer-me a dor inteira,
e das tantas metades muitas
que ainda muito me lembram tanto
a voz do teu amor
preguiçoso,
no meu céu
das manhãs
de quase
junho.

RITUAL
estava espalhada pelos dias toda a tua falta,
arrastando nos pés o peso da tua ausência.
a saudade me era uma oferenda das manhãs e de todas elas

percebi: a tristeza era um ritual

COSTUREIRO
poeta é costureiro:
confecciona amores para os olhos
desaperta a vida nas palavras

do texto ao têxtil
da palavra ao fio

costura para fora, encantamentos
(não trabalha sob encomenda)

traz o poema aos dedos
e ainda que por vezes se alfinete
garante seu ofício

pois sabe que a poesia jamais estará
fora de moda.

MULHER
Mulher, se queres me amar peço: ama com força, com os dentes, ama com as unhas, com os olhos, o quadril, as tempestades, ama com tuas vísceras, tua ira, ama como se viesses a criar os deuses todos. Ama com a intensidade das marés sob a lua cheia. Ama a aliviar-me da minha própria e finita condição; a dar-me vida e aniquilar-me ininterruptamente. Ama para afastar o ar ou matéria qualquer que nos afaste a boca. E bebe de mim, come de mim, sorva saliva como alma a diluir na tua. Ama para escrever-nos o futuro e apagar-nos o passado. Ama como uma neurose, como doença, e como a cura. Ama como tua maior ambição e o teu mais nobre desapego. Ama como a dor jubilosa do orgasmo, e cale o tempo entre as tuas pernas, cale a dúvida entre os teus gemidos. Lambe-me o queixo e a paz que estendemos entre os lençóis. Ama para interrupção suave do tempo, para o cessar brusco do mundo. Apertar o peito, dilatar pupilas, derramar o sonho, incendiar a lágrima, o sangue, vencer a morte.

Deita-me na cama dos absurdos, e brinda-nos o amor.

DESTITUÍDO
o homem bebia.

o homem bebia para esquecê-la tanto quanto para lembrá-la.
o álcool como a tirar-lhe a lembrança para devolvê-la depois. ou o contrário disso.
o álcool para desinfetá-lo das fundas dores e lustrar o seu recente amor antigo.

o homem bebia para ficar mais longe do ontem.
aos goles, acentuava as inexatidões.

com as palavras de bêbado, falava para se ouvir.
enchendo a garrafa de flores a fazer-lhe um jardim para o descanso.

"quando melhorar, quero ser longe" - dizia.

era o homem como todos nós: tolo.
apenas destituído de sua lucidez.

CORRENTES
Estar é um improviso e ser é permanência, mas uma permanência descuidada por nós. Somos uma fragilidade desatenta às marés que nos atingem incessantemente. Não sabemos se as correntes nos levarão à terra firme ou nos afogarão de vez. Por isso desejamos as sempre mesmas e já conhecidas correntes. Acostumados com suas direções, sabemos pelo hábito para onde nos levarão. E então fazemos do imenso oceano, nossa particular e limitada lagoa, a navegarmos em círculos como se fosse tudo, como se fosse o bastante. E assim tememos as demais pois não sabemos o que será de nós para além das paisagens que não conhecemos. O medo nos desenraíza ao mesmo tempo em que nos prende no mesmo lugar. O não-saber nos apavora e nos desequilibra. Mas quem sabe se permitirmos que a ondulação do ir e vir das coisas mesmas não nos leve àquele lugar, real, e inédito onde possamos aportar e encontrar descanso, mas que por ora só alcançamos no espelho da poesia?

INFERNO
Eu irei para o inferno. Com passagem só de ida e sem chances de cancelamento. Eu irei para o inferno e chegarei com honrarias de um chefe de Estado, com o prestígio de um líder religioso, como o ganhador de um prêmio Nobel. Receberei as mais calorosas boas vindas, camarote com porcelana chinesa e mil toalhas brancas. Serei finalmente um sucesso, celebrado pela minha incoerência, festejado pela competência em ser emocionalmente incompetente. Serei aplaudido de pé pelos meus desperdícios: de tempo, do outro, de mim. Serei abraçado por todos os amores que por capricho joguei fora. Autógrafos por todas as chances que por orgulho descartei. Serei aclamado por acreditar nos deuses mais pagãos - como o sofrimento - e dar minha vida toda a ele em sacrifício. Serei notícia pela minha cegueira existencial, manchete pela exímia habilidade em transformar frustrações em raiva e destruição. Ganharei medalhas por me arrepender muito mais vezes do que ter feito melhor. Creio até que ganharia a chave da cidade se lá fosse uma. Serei palestrante a contar como coleciono todas as contradições do mundo e exijo coerência de todos que me cercam. Serei convidado à jantar para explicar como nego meus erros e transformo responsabilidade em culpa para jogar nos outros. Ganharei prêmios pelo vitimismo e troféus por escolher as palavras certas para dizer coisas erradas. Darei aulas por andar em círculos e deixar o que me serve escapar por um triz; por convenientemente acreditar que a vida é injusta e o mundo me é um eterno devedor, podendo com meu ressentimento cobrar a todos das maneiras mais infantis. E antes da minha primeira entrevista coletiva, chorarei nos bastidores. Por não ter roupa que usar, pois ir para o inferno é ficar nu. Diante de si mesmo. E não saber lidar com a vergonha que nos despiu e nos contou que costumamos nos colocar sozinhos no inferno para não sermos mandados para lá.

BLOG DE GUILHERME ANTUNES

BY PISITH SONG

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