quinta-feira, 2 de julho de 2015

Abgar Renault

DESINTEGRAÇÃO
Eu tenho o coração cheio de coisas para dizer. . .
E a minha voz, se eu acaso falasse,
teria a força de uma revelação!

Meu espírito palpita ao ritmo desordenado e aflito
de asas prisioneiras que se dilaceraram
na arrancada impossível da libertação e da altura.

Minhas mãos tremem ainda ao contato
imaterial, sobre-humano e fugitivo
de qualquer coisa além e acima deste mundo. . .

Adormeceu para sempre no fundo dos meus olhos
a saudade de paisagens estranhas e longínquas,
que nunca, nunca mais voltarão neste tempo e neste espaço.

Doem meus olhos. Tremem, ansiosas, as minhas mãos.
Meu espírito palpita. Tenho o coração cheio de coisas para
[dizer. . .

Eu estou vivo. Senhor! mas. em verdade, c como se estivesse
[ morto. . .
[1931] 

DIANTE DO CREPÚSCULO
Para que tantas palavras, se não existe onde derramá-las
ou fita de ouro em que enfiá-las em lúcido colar?
Para que esta contiguidade e este contacto,
se são construídos de alturas e de mares que não esquecem?
Para que o jardim de asas verdes e tantos céus,
quando a neblina corta o olhar e estanca o voo?
Por que nas mãos de escamas brotam frouxéis,
se em nenhuma pele se adoçará sua doçura amarga?
Onde a taça desmedida em que se debruçaria
tanto entornado vinho em busca de ser bebido?
E as uvas cálidas de onde ele escorreu
e em que procura regresso e reintegração?
Em que cidade de tantas ruas sem casas
procurar os sapatos já sem couro
e as pernas sem pés que desejam calçá-los para ir aonde?
Toda pergunta fica e interroga outra interrogação:
Quem se abriria em arca ou peito ou bosque
para receber o escuro viajante que está partindo sem viagem?

SOBRE ABGAR RENAULT

[In A outra face da lua, Rio de Janeiro: José Olímpio/INL, 1983, pp. 42-43]



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