quarta-feira, 1 de julho de 2015

Fernando Paixão

OUTUBRO DE 1999
“Se a tua morte não é notícia
nos diários de Espanha
devemos então concluir
que a presença de um poeta
corresponde tão-somente ao círculo
de uma língua local, intransferível?”

Talvez. Os jornais nascem todas as manhãs
a partir de um engano, bem sabemos.

Quando morre um poeta, verdadeiro,
leva consigo um repertório insuspeito
de dedos noturnos ainda em funcionamento.
Nessa hora os seus versos teclam
aéreo abandono
mesmo cerrados os livros.

Não foi diferente contigo.

Hoje, pelo dia inteiro, chegou às alamedas
e praças de Sevilha e Barcelona
(e mesmo nestas calles de Madri)
um vento seco e severino, João Cabral,
mensageiro da tua ausência.


VÉSPERA
Um resto de hora
varre os telhados
em despedida.

Como outros calendários
sucumbiram
em outros quartos de hotel.

Idêntica mentira: a noite
alonga o corpo da fera
no escuro das velhas ruas.

A viagem termina. O dia
fecha os olhos à própria água.
Devagar: sem protocolo.

[In Poeira, São Paulo: Ed. 34, 2001]



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