sexta-feira, 3 de julho de 2015

Rainer Maria Rilke

PRIMEIRA ELEGIA DE DUINO
Quem, se eu gritasse, me ouviria em meio às ordenações
Dos anjos? E mesmo se um deles de repente
Me chamasse ao seu coração eu me apagaria face à sua
Presença mais forte. Porque o Belo nada é
Senão o começo do terrível, que estamos apenas supor-
[ tando,
E se assim admiramos é que impassível
Desdenha de nos destruir. Todo anjo é terrível.
Hei de reter-me, pois, e hei de conter em mim
O apelo de um triste soluço. Ah! a quem então
Nos é dado recorrer? Nem aos anjos, nem aos homens,
E os animais sagazes já desconfiam por instinto
Que não nos podemos sentir em intimidade
No mundo interpretado. Resta-nos talvez
Uma árvore qualquer a rever cada dia,
Sobre a encosta; resta-nos a estrada de ontem,
E a fidelidade infantil a algum costume
Que em nós se aprouve e assim ficou e não partiu.
Oh! e a noite, a noite, quando o vento cheio de ruído do
[ mundo
Nos consome a face para quem não seria a desejada
Um suave desencanto, que ante o coração sozinho
Se ergue penosamente. E’ ela mais amável aos amantes?
Ah! esses só fazem se enganar mutuamente com a pró-
[pria sorte,
Não o sabes ainda? Lança o vazio de teus braços
Aos espaços respiráveis; talvez que os pássaros
Sintam num voo mais íntimo o ar mais amplo.
Sim, quiseram-te as primaveras; muitas estreias
Viveram para que as descobrisses. Do passado
Cresceu a onda; ou bem ao cruzares
Uma janela aberta um violino se entregou a ti. Tudo isso
[era missão.
Mas lhe estiveste à altura? Não andaste sempre perdido
A espera, como se tudo te anunciasse
Uma visão amada? (E onde a queres abrigar,
Agora que grandes e estranhos pensamentos
Vêm e vão em ti e às vezes se deixam, à noite) .
Mas se sentes saudade, canta os amantes; bem longe
Da plena imortalidade está seu decantado sentimento.
Canta, a esses abandonados que quase invejas e que
Te parecem tão melhores que os aquietados. Recomeça
Sempre a tua inacessível louvação;
Pensa; o herói persiste, o próprio fim foi nele
Um pretexto para ser: seu derradeiro nascimento.
Mas aos amantes, retoma-os ainda a natureza
Esgotada como se as forças que os realizaram
Não se pudessem reproduzir. Já pensaste bem em Gas-
[para Stampa,
Essa amante em cujo exemplo exaltado se encontra
Toda jovem que o amado abandonou: se eu fosse como
[ela?
Essas penas mais antigas, enfim, não deveriam ser
Fecundas para nós? Não é chegado o tempo
Em que nós, amantes, nos livremos vibrando das amadas
Como vibra a flecha ao deixar a corda para ultrapassar-se
Na tensão do ímpeto. Porque não há repouso em nada.
Vozes, vozes! Ouve, meu coração, como só os santos
Ouviram: eles, que o apelo imenso
Ergueu do chão; e eles sobre-humanos
Prosseguiram ajoelhados, sem atender a nada:
Pois era como ouviam. Não que tu pudesses suportar
A voz de Deus, nem de longe. . . Mas ouve o sopro,
A incessante mensagem que nasce do silêncio.
Agora, daqueles que jovens morreram, sobe um murmúrio
[ aos teus ouvidos.
Não importa onde entrasses, nas igrejas
De Roma e de Nápoles, não te falou sereno o seu destino?
Ou uma inscrição se impunha, majestosa,
Como há pouco naquela lousa em Santa Maria Formosa.
Que me querem eles? Delicadamente
Preciso desfazer a impressão de erro que muitas vezes
Perturba um pouco o movimento puro de suas almas.
Bem certo deve ser estranho não habitar mais a terra,
Não recorrer mais a hábitos apenas adquiridos,
Não mais dar às rosas e às promessas de outras coisas
A significação de um futuro humano;
Estranho não se ser mais o que se foi no infinito cuidado
Das mãos, e abandonar até o próprio nome
Como um pobre brinquedo jogado.
Estranho não mais desejar desejos. Estranho
Ver tudo o que foi laço, no espaço flutuar
Desfeito. Coisa difícil é estar morto;
E cheia de ressurreições, pois que há sempre para nós
Um prenúncio de eternidade. Mas os vivos
Cometem, todos, o erro de tudo distinguir.
Os anjos (diz-se) muitas vezes ignoram se caminham
Entre os vivos ou os mortos. O eterno rio
Carrega sempre através os dois reinos todas as idades
E em ambos o que domina é a sua voz.
Afina! eles não precisam de nós, os cedo transportados;
Suavemente nos libertamos das coisas terrenas como
O ser se despega do seio materno. Mas nós, que preci-
[ samos
De tão grandes segredos dos quais em luto
Nascem tantas vezes vitórias tão abençoadas, podemos
[acaso viver sem eles?
E vá a lenda de que outrora, lamentando Linos
A primeira música ousou penetrar a estéril rigidez da
[ matéria inerte. . . e que então, no espaço em
[sobressalto que um adolescente quase divino
De súbito deixou para sempre, o vazio penetrou
Naquelas ondulações que são para nós arrebatamento e
[ consolo e socorro.

Tradução: Vinícius de Moraes

[In Poesia Alemã, Prefácio e Organização Geir Campos, Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura, 1960, pp. 331-337]

BY ALESSANDRA ZAMPARO- FLICKR

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