sábado, 4 de julho de 2015

Lupe Cotrim

SAUDADE
a Guilherme de Almeida

A saudade é o limite da presença,
estar em nós daquilo que é distante,
desejo de tocar que apenas pensa,
contorno doloroso do que era antes.
Saudade é um ser sozinho descontente
um amor contraído, não rendido,
um passado insistindo em ser presente
e a mágoa de perder no pertencido.
Saudade, irreversível tempo, espaço
da ausência, sensação em nós premente
de ser amor somente leve traço
num sonho vão de posse permanente.
Saudade, desterrada raiz, vida
que se prolonga e sabe que é perdida.

ANJO BARROCO
Anjo barroco é a fonte do teu rosto
e és fiel e grave como as crianças tristes.
Pela tua alma de infância ainda persiste
a pureza, na sombra de um desgosto.

Teus olhos, de um castanho manso e denso,
têm ternura de terra e de brinquedo
e teu riso é sonoro e sem segredo
e em tudo és sempre o mesmo e sempre intenso.

A vida te perturba. A tempestade
que por vezes te rasga o sentimento
vem da aurora de um mundo sem idade

onde o homem solitário, na selvagem
surpresa do primeiro sofrimento,
tinha um deus ainda intacto em sua imagem. 

ÚLTIMA PAISAGEM
Quando eu morrer,
se morrer,
quero um dia de sol,
denso, cintilante,
escorrendo-me pelo corpo
seus dedos quentes.
E quero o vento,
um largo vento dos espaços
que me respire e me arrebate
no seu fôlego,
por outros continentes.
E quero a água,
violenta, fria, palpitante,
possuindo-me a alma
a transbordar dos poros.

Se nenhum amor me resguardar
em seu abraço,
e dar-me sensação
de que possuo e pertenço,
quero pegar a vida,
palmo a palmo,
traço a traço,
num dia esfuziante de azul,
com o mar na boca e nos braços.

Quando eu morrer,
se morrer,
eu que renasço a cada momento,
criando íntimos laços
por toda natureza,
eu que perduro no eterno
da intensidade,
quero morrer assim;
os olhos na distância
do entendimento
e o corpo penetrando na beleza,
passo a passo.
Meu fim transformado em luz
dentro de mim.


[In ENCONTRO, São Paulo: Brasiliense, 1984, pp. 59-61]

BY ANDRÉ BOGAERT 

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