segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Rainer Maria Rilke

Ah, havíamos acordado que o silêncio haveria de prevalecer entre nós: haveria de ser a lei deste inverno, uma lei dura e implacável. Agora, porém, principiava a nossa ternura; não apenas a nossa: a ternura do que fora realizado estaria em meu coração. Talvez — a necessidade era enorme — fôssemos fortes o suficiente para nos calarmos — não éramos nós que trazíamos as notícias; a boca do destino se abria e as despejava sobre nós, pois o amor é o verdadeiro clima do destino. Por mais que ele abra o seu caminho através do céu — a sua Via Láctea feita de milhões de estrelas de sangue —, o país que jaz sob o seu manto encontra-se prenhe de fatalidades. Nem mesmo os deuses, nas metamorfoses de sua paixão, eram poderosos o bastante para libertar a terrena, assustada e fugitiva amada das ciladas deste chão fecundo.

[In O TESTAMENTO, tradução e notas de Tercio Redondo, prefácio Helmut Galle, São Paulo, Globo, p. 51]

 
By Dale Knickerbocker



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